Não demais, nem pouca bosta

26 de junho de 2026

Vou dar a minha segunda entrevista em menos de 2 meses! Como eu me sinto? Sei lá. A minha primeira experiência foi muito intensa...


Eu adorei ter participado do podcast do Rufis Jr. Logo mais, farei uma aba no blog de "Entrevistas", e deixarei um link que levará para as minhas entrevistas. Quem assistiu, viu que eu falei bastante sobre a relação com a minha mãe. Esse não era o meu intuito. Eu queria falar sobre a minha profissão, mas o entrevistador achou que seria melhor para o canal só contar da minha profissão no final. O público dele eram donas de casa, ou seja, mulheres mais conservadores, e ele queria que elas tivessem empatia por mim.


Não foi o que aconteceu.


Fiquei cheia de expectativa. Pensei "será que vai viralizar? Será que vão gostar? Será que vou ganhar muitos seguidores?". Quando fui gravar, foi um dos dias mais felizes do ano para mim. Eu paguei uma maquiagem profissional e, no dia anterior, rodei o shopping só para encontrar um vestido novo que combinasse com o podcast. Paguei caro no vestido, mas eu queria estar linda! Não seria a primeira vez em que fui em um podcast, já dei uma entrevista em 2023 quando não era garota de programa, mas o dono do canal simplesmente apagou o conteúdo porque desistiu do projeto por não ter alcance. Então eu já sabia como me portar diante da câmera e já ensaiava o que falaria. Quando fui contando da minha vida, fui me sentindo mais liberta, e teve uma hora que me emocionei ao contar. Tenho dificuldade de chorar, mas consegui chorar diante das câmeras. Eu queria que as pessoas sentissem um pouco da minha dor. Eu queria que elas me acolhessem. O entrevistador quis que eu falasse da minha mãe porque viu um ou outro vídeo com essa temática no meu TikTok. Ele percebeu que eu fui abusada, mas eu disse a ele que falaria tudo, menos sobre isso. Percebi que eu ainda queria proteger a minha mãe de alguma forma, eu só irei conseguir revelar isso no meu livro.


Gostei muito de participar e voltei para casa cheia de esperanças! Será que agora as pessoas iriam me entender?


A minha mãe, além de fazer tudo o que ela fez, ainda colocava toda a minha família contra mim. Eu era acusada pela minha mãe, pelo meu pai e pelo meu irmão de ser a errada. Então eu me sentia excluída, incompreendida e sem lugar no mundo. Eu não era aceita. Eu era um ser solitário, eu me isolava do mundo. Eu não tinha amigas quando era criança, as meninas não gostavam de mim, nunca entendi o por quê, e quando fui crescendo, não conseguia me envolver com os meninos. Eu sempre fui nerd, esquisita, estranha. As pessoas falavam comigo para pegar respostas das atividades e das provas, pois eu sempre fui muito estudiosa. Eu não tinha vínculos. Claro que uma ou outra menina fazia amizade comigo, mas em geral eu ficava sozinha. Nunca me esqueço, quando era adolescente, que uma menina me perguntou:


 – Você é lésbica?


– Não, por quê?


– É porque todos os meninos da escola pedem para ficar com você e você não fica com ninguém.


Eu não conseguia me envolver com ninguém. Eu tinha medo dos outros, para mim, todo mundo era uma espécie de monstro. Eu deveria construir um planeta que só tivesse eu. Eu tinha medo das pessoas. Eu achava que eu errada só por existir. Eu queria muito, no fundo, ser amada. Eu queria me envolver. Eu queria que alguém nesse planeta me entendesse. Eu queria ser vista. Mas eu não era, não era por ninguém. Talvez a maior dor que eu carrego na vida é a exclusão. Porque desde muito cedo eu perdi a minha infância. Desde muito cedo eu não tive mãe nem pai. Desde muito cedo eu tive que aprender a me virar sozinha. É só eu e eu no mundo. Ninguém ia me ajudar.


Então quando gravei o podcast achei que seria amada. Eu achei que seria incluída, que eu seria vista pela minha história. Que alguém nesse mundo me compreenderia. Só as minhas terapeutas me compreendem. Mais ninguém.


Quando o vídeo foi lançado, muitas mulheres foram queridas comigo, disseram que eu era muito forte, que além de tudo eu era muito estudiosa, que ninguém poderia me julgar...


Mas mais da metade das pessoas me apedrejaram.


"Você é doente"


"Você com certeza tem algum transtorno"


"Você não está bem, por isso é garota de programa"


"Achei que seria uma história de superação, mas dizer que virou puta é mais do mesmo"


"Tem que ver os dois lados. E o lado da sua mãe?"


"Você não tem consciência das suas atitudes, por isso se prostitui"


"Vai fazer terapia"


"Ninguém é feliz com isso, você está se autoenganando"


"Em cada transa, você se destrói mais"


"Você é uma coitada"


Será que essas pessoas que escrevem isso tem dimensão que a gente lê? Tem dimensão que a gente é um ser humano? Me senti desumanizada. Senti que me revitimizaram. Para essas mulheres, o fato de eu ter virado garota de programa é uma aberração. Eu sei que eu sou uma aberração para muita gente, mas não tinha noção desse ódio todo. Na verdade, eu já estou costumada com o ódio. Estou acostumada a tomar porrada na cara. Mas eu não queria, não. Eu queria ser ouvida. Eu queria ser respeitada. Então meu cérebro, que é um campo minado, todo dia entrava nos comentários do vídeo procurando alguém que falasse mal de mim. Todo dia tinha alguém falando mal de mim. No começo, eu dava risada. Depois fui ficando profundamente triste. Não me importava o que elas diziam. Me importava o fato de eu não ter sido amada por elas. Não fui aceita. Mais uma vez excluída. Mais uma vez massacrada. Mais uma vez imcompreendida.


Até quando? Até quando eu vou deixar as pessoas determinarem meu humor?


Depois desse dia, passei um dia na cama, completamente depressiva. Eu não fui aceita, eu não fui aceita, eu não fui aceita. Meu cérebro só conseguia dizer isso para mim. Mais uma vez não me amaram.


"O Transtorno de Personalidade Borderline faz com que a rejeição e a possibilidade de abandono sejam vividas de forma muito mais intensa do que para a maioria das pessoas. Isso acontece porque há uma combinação de fatores: uma sensibilidade emocional elevada, uma tendência a perceber sinais de rejeição com mais intensidade, dificuldade para regular as emoções e, muitas vezes, uma autoimagem instável. Como a aceitação dos outros pode ter um peso muito grande na forma como a pessoa se percebe, ser rejeitada não é sentido apenas como "alguém não gostou de mim", mas pode despertar a sensação de não ser suficiente, de não ter valor ou de não pertencer. Por isso, quando uma pessoa com borderline se expõe, é comum desejar fortemente ser acolhida e aceita. Esse desejo não significa necessariamente querer agradar a todos, mas encontrar segurança e validação. Quando a resposta é a rejeição, o cérebro pode interpretar essa experiência como uma ameaça muito maior do que ela objetivamente é, desencadeando uma dor emocional intensa e desproporcional ao acontecimento. É justamente essa forma de processar a rejeição que ajuda a explicar por que situações que, para outras pessoas, seriam apenas desagradáveis podem ser profundamente devastadoras para alguém com borderline."


Lembra lá quando eu era adolescente e não ficava com nenhum menino que pedia para ficar comigo? Eu não queria que os meninos me abandonassem depois. Então eu os evitava. Eu não começava relações porque tinha medo delas acabarem. E me levar embora junto. Talvez eu ainda sou assim. Só me relaciono com homens que me pagam, porque assim estou no controle. Já sei que temos um acordo e depois cada um vai para sua casa. Fora do meu trabalho, eu continuo essa adolescente. 


Eu sou borderline, então vamos falar sobre o medo do abandono.


Esses dias fui encontrar minhas tias, e minha mente dizia o tempo todo que eu não era bem-vinda. Que eu não era amada por elas. Que eu estava sobrando. Minha mente disse tanto isso que às 21h, enquanto estava com elas, tive uma vontade de dormir profunda. Eu durmo tarde. Mas a minha mente não aguentava mais a si própria. Precisei ir embora correndo, e prometi não aparecer no próximo encontro. Inventei dezenas de coisas. Inclusive, fui assistir o jogo do Brasil com elas, mas preferia assistir sozinha. Sim, sozinha. É bizarro porque sempre me convenço de que estar sem as pessoas é melhor. Porque tenho medo do vínculo.


Quando eu era criança, minha mãe repetia todos os dias para mim assim:


"Você é feia"


"Nenhum homem vai te querer"


"Seu corpo é horrível"


"Você nunca vai ter condições de viver sem mim"


"Você é burra"


"Você é infeliz"


"Ninguém gosta de você"


"Você nunca vai ter marido e filhos"


"Você nunca vai ter nada"


Eu engoli a minha mãe. Ela me colocou tanto medo que engoli ela. Minha analista me lembrou que já faz 4 anos que não falo com ela e que ela não está na minha vida, mas por um segundo eu achei que estava. Por um deslize, eu encontro a minha mãe. Aqueles comentários foram uma personificação da minha mãe. Uma versão melhorada de tudo o que ela fez comigo. Eu sou uma versão melhorada de tudo o que a minha mãe fez comigo? Porque me martirizo sozinha, como a minha mãe fazia comigo. Eu engoli muito a minha mãe e estou tentando vomitar. Nessa próxima entrevista, eu só quero fazer a entrevista. Que se dane o que vai acontecer. Que se dane quem comentar. Sempre vão julgar uma garota de programa mesmo. Sempre vão me julgar. Desde que nasci é assim.


Esse texto foi inspirado na música "Não sou demais" da Luísa Sonza.


Não Sou Demais

Luísa Sonza


Sabe a expressão de se ferrar bonito?

Prazer, tá falando comigo


Essa sou eu, tropeçando nas coisas que digo

Se eu cair de um lugar infinito

Fui eu mesma quem cavou o abismo


Eu me xingo com meus próprios palavrões

Eu me mordo com meus próprios tubarões

Eu me julgo com minhas próprias conclusões


Eu tropeço nas pedras que eu jogo, eu

Eu nem mergulho e me afogo, e

Num sonho bom, eu mesma me acordo


Sou pergunta sem resposta

Sou um risco sem aposta

Nem sagaz, nem idiota

Nem simples, nem exótica

Há quem odeie, e tem quem gosta

Não sou demais, nem pouca bosta


E se algum dia alguém lembrar

Eu espero estar em outro lugar

Que eu desista da minha pressa

Pra eu focar no que interessa


Que eu apare as arestas

Que eu encontre alguém que presta, e que

Não veja claro o perigo na minha testa

Por Sol Rara 29 de junho de 2026
"Tô querendo largar essa vida, e você parece ser a pessoa certa pra fechar com chave de ouro", foram as suas primeiras palavras quando quis me contratar. Fiquei meio chocada. Pensei "será que ele está querendo encerrar sua vida?", depois fiquei com a hipótese de que ele queria parar de sair com garotas de programa – e
“Eu não gosto de usar brinquedos, mas obrigada pela abertura”, e assim se iniciou o nosso primeiro e
Por Sol Rara 21 de junho de 2026
“Eu não gosto de usar brinquedos, mas obrigada pela abertura”, e assim se iniciou o nosso primeiro encontro. Combinamos de ficar por três horas juntos, no Lush, motel que tanto gosto. Conversamos bastante, eu contava da minha vida e o ouvia falar sobre ele. Quando fomos para a parte sexual, ele estava um pouco nervoso.
Mais uma vez serei visceral. Esses dias tive encontros bem legais, fora do trabalho. Conheci mulhere
Por Sol Rara 8 de junho de 2026
Mais uma vez serei visceral. Esses dias tive encontros bem legais, fora do trabalho. Conheci mulheres que também trabalham com sexo e são garotas de programa. Foi o dia internacional das prostitutas no dia 2 de junho e uma galera se reuniu para criar essa irmandade e esse espaço entre as trabalhadoras sexuais. Eu achei
Combinamos de nos encontrar no hotel que ele estava. Era na paulista, um hotel muito chique. Ele vei
Por Sol Rara 14 de maio de 2026
Combinamos de nos encontrar no hotel que ele estava. Era na paulista, um hotel muito chique. Ele veio até mim na recepção e fez uma piada sobre ser um brasileiro falsificado. Ele não morava no Brasil, mas vinha para cá para trabalhar. Chegamos no quarto e ele me pergunta o que quero beber, digo que quero uma cerveja, e
Perdi a minha conta do Instagram, na qual me comunicava tanto com vocês! Tiveram pessoas que acharam
Por Sol Rara 29 de abril de 2026
Perdi a minha conta do Instagram, na qual me comunicava tanto com vocês! Tiveram pessoas que acharam que eu as tinha bloqueado, pois eu não aparecia mais, mas tentei reforçar nas minhas outras redes sociais (TikTok e Twitter) que perdi a conta. Fiquei muito triste porque o Instagram era a rede que eu mais gostava de m
Estão preparados para mais um texto visceral? Eu gosto muito quando sou honesta com vocês. Ultimamen
Por Sol Rara 17 de abril de 2026
Estão preparados para mais um texto visceral? Eu gosto muito quando sou honesta com vocês. Ultimamente tenho vivido um dos momentos mais profundos de descoberta de mim mesma. Tenho feito análise, estudado psicanálise e também feito terapia em reprogramação emocional, além de estar em processo de alta com outra psicólog
Esses dias saí com um homem que me deixou muito reflexiva. Ele era bem mais velho que eu, muito mais
Por Sol Rara 10 de abril de 2026
Esses dias saí com um homem que me deixou muito reflexiva. Ele era bem mais velho que eu, muito mais experiente e que era louco pelo meu corpo. Não é tão fácil encontrar homens que sejam loucos assim por nós, por cada parte do nosso corpo. Muitos homens se limitam à vagina e aos seus seios, à boca, ao pescoço… e para p
Meus amores, 2026 tem sido um ano cheio. Às vezes, sou testada até os limit
Por Sol Rara 6 de abril de 2026
Meus amores, 2026 tem sido um ano cheio. Às vezes, sou testada até os limites e, ao mesmo tempo, tenho amadurecido muito. Me sinto muito mais mulher e adulta a cada dia que passa, mas seria mentira se eu não dissesse também que estou cansada. Aguentar o mundo inteiro nas costas cansa, ser forte
Esse homem chegou na minha vida querendo uma chamada de vídeo comigo. Nós fizemos e ele foi contando
Por Sol Rara 15 de março de 2026
Esse homem chegou na minha vida querendo uma chamada de vídeo comigo. Nós fizemos e ele foi contando do quão estava louco por mim, por eu ser peluda, e ele ter muito fetiche em pelos. Ele também me contou um detalhe interessante: - Você me bloqueou em outro número. - Sério, por quê? - Eu te mandei mensagem e te liguei
Ele disse que namorarMeus amores, chegamos ao fim da saga
Por Sol Rara 10 de março de 2026
Meus amores, chegamos ao fim da saga "ele disse que namoraria comigo", porque eu decidi encerrar. Esses dias, tive uma conversa com alguém que tem um rolo por anos. O cara nunca se decidiu. Eles tinham muita química, então ela foi levando. Já estão há 5 anos nesse caso indefini
Leia mais