O peso de esperar demais em alguém

08 de junho de 2026

Mais uma vez serei visceral. Esses dias tive encontros bem legais, fora do trabalho. Conheci mulheres que também trabalham com sexo e são garotas de programa. Foi o dia internacional das prostitutas no dia 2 de junho e uma galera se reuniu para criar essa irmandade e esse espaço entre as trabalhadoras sexuais. Eu achei o máximo. Confesso que no começo eu não queria ir. Porque tenho uma dificuldade de estar no meio de um grupo. Nunca me senti pertencente a nada. Tenho uma solidão própria. Então inventei mil desculpas para não ir. Até que vi que estava me sabotando. Naquele dia, eu atenderia um cliente de manhã. Fiz algo muito ousado; coloquei a minha cachorra para dormir na creche. Nunca passo o dia todo fora de casa por conta dela. Mas me dei esse direito de não ter um cachorro por um dia e fiquei o dia todo fora de casa. Fui para o evento porque percebi no fundo que eu queria ir. Me surpreendi. Fui bem recebida. Fui acolhida. Não fui julgada. Fui querida. Mas no meio disso tudo eu encontrei “A Fria”, nome fictício da garota que estava entre nós. Eu tinha uma baita expectativa de encontrá-la. Eu a admirava pela internet. Ela parecia ser muito interessante. E claro que eu também tinha o desejo de me aproximar dela. Sem perceber, eu tornei o evento ela. Nunca escrevi isso em outro texto, mas eu sou diagnosticada com um transtorno que se chama Transtorno de Personalidade Borderline. É um transtorno caracterizado por instabilidade emocional, desregulação, impulsividade e medo intenso do abandono. No passado, eu me automutilava e tentava suicídio quando me sentia rejeitada. Hoje, eu melhorei muito, muito mesmo, não tenho mais autodestruição e consigo ser bem consciente dos meus gatilhos. Mas ainda tenho intensidade e medo do abandono em algum nível. Acho que ninguém gosta de ser rejeitado. Acontece que quando você tem borderline, tudo é muito mais intenso. Eu fui uma borderline muito grave, então ainda tenho resquícios do transtornos, em que luto com muita terapia e autoconhecimento para superar.


Por que estou contando isso?


Porque naquele dia, como eu sabia que A Fria estaria lá, de alguma forma eu queria que ela se aproximasse de mim. De alguma forma, eu queria que ela me amasse. Já contei em outros textos que eu fui rejeitada pela minha mãe, então eu busco inconsciente pessoas que possam me amar. Mas o problema, pasmem, é que eu sempre escolho as piores pessoas!


Assim que cheguei, fui recebida por uma GP que estava super feliz de me ver. É claro que eu fiquei feliz por isso, mas ao mesmo tempo observava o comportamento da Fria. Será que A Fria ficaria feliz por me ver? Essa GP disse que adorou me conhecer, com muita felicidade, e eu, por mais que fiquei feliz, fiquei pensando no comportamento da Fria. Assim que cheguei perto da Fria, ela falou comigo. Quando eu comecei a dialogar com ela, ela simplesmente virou para o lado e me ignorou. Fiquei chateada. Antes disso, ela tinha falado do meu cabelo, aquilo me deixou chateada também.


– Você nunca pensou em alisar o seu cabelo?

– Não, eu gosto de ser natural.


Por que ela estava falando do meu cabelo? Pensei: será que ela acha meu cabelo feio? Eu estava completamente obcecada na Fria. Cada palavra que ela dizia, entrava no meu cérebro de um jeito diferente. Eu estava buscando afeto em uma pessoa distante e que ainda me fazia sentir diminuída. Por que eu estava fazendo isso comigo?


Depois de tudo, eu puxei um assunto com ela, e ela disse simplesmente “ai, não quero falar, assiste meus stories”. Me senti estranha. Então a gente não podia desenvolver uma conversa? Eu tinha que simplesmente assistir aos stories dela? Nossa, que mulher chata! Voltei para casa com esse pensamento. E tudo de bom que eu tinha vivido no evento foi deixado de lado, porque eu estava preocupada em interpretar A Fria.


O Borderline transforma pequenas situações em monstros. Pequenas distâncias em rejeições enormes. Meu cérebro simplesmente não conseguia focar nas sensações boas do evento, nas meninas legais e incríveis que eu tinha conhecido, ele só ficava na Fria, na Fria, na Fria. Por que A Fria não quer ser minha amiga? O que eu fiz de errado? Ela não gosta de mim? Por quê?


Percebem como isso consome mentalmente? E eu fui sendo consumida pelos meus próprios pensamentos. Hoje em dia eu não me suicido mais. Eu não me machuco. Mas ainda tenho pensamentos repetitivos que tenho que cuidar.


Eu idealizei A Fria. Eu achei que ela seria incrível. Legal, amorosa, acolhedora. Ela não foi isso para mim. Fiquei decepcionada. Fiquei decepcionada comigo mesma também. Como eu perco o meu tempo esperando tanto dos outros?


Dias depois, nos reunimos entre 5 meninas que eram GPs em um barzinho para conversar. Eu, inconscientemente, sentei do lado da Fria e pude perceber ainda mais as suas nuances. Teve uma hora que me abri sobre uma vulnerabilidade para ela e ela simplesmente me zoou. Fiquei constrangida. Por que ela fazia isso? Será que era só comigo? Será que só eu reparava nela?


Em um dado momento, eu disse que não confiava em alguém ao ponto de transar sem camisinha e ela disse “você não confia nem na sua própria sombra”, depois de eu ter dito ali na mesa que tinha dificuldade de confiar nas pessoas… ah, nossa, pra mim isso foi a gota d'água, completamente desnecessária, insensível, e ainda por cima fazendo sarcasmo da minha vulnerabilidade. Voltei para casa pensando. Falei para ela que não gostei. Ela começou a se defender. Encerrei. Mais tarde, ela viu algo que postei nos meus stories e achou que era para ela. Nessa hora, já me irritei, eu disse que o mundo não girava em torno dela e bloqueei.


O mundo não gira em torno dela – eu repeti para mim.


Em algum momento, as minhas emoções ficaram reféns das emoções dela. Mais tarde, a minha terapeuta me explicou que eu tenho uma dificuldade tremenda de focar no positivo. É como se o meu cérebro sempre estivesse atento ao que vai mal. Caramba, o encontro foi ótimo, as outras meninas são superlegais, por que eu foquei justo em uma que não estava sendo legal comigo? Por que eu esperei demais de uma pessoa que só me deixava mal em cada contato? Por que eu queria ser amada por uma pessoa que me despreza?


“Quando a pessoa tem Borderline, existe uma sensibilidade muito alta à rejeição e ao abandono. O cérebro emocional dela reage como se qualquer sinal de distância fosse uma ameaça muito grande. Então o vínculo com o outro vira algo “urgente”; precisa ser mantido a todo custo. O sistema emocional não processa o amor de forma estável. Ele tende a oscilar entre duas percepções extremas: essa pessoa é tudo para mim/essa pessoa me machuca. Isso é chamado na psicologia de pensamento dicotômico, onde a mente tem dificuldade de integrar o outro como alguém “bom e ruim ao mesmo tempo”. Quando alguém despreza ou dá afeto de forma inconsistente, isso cria um padrão psicológico muito forte chamado de reforço intermitente. É o mesmo mecanismo que faz jogos de azar viciarem: às vezes vem atenção, às vezes não vem. Para uma pessoa com medo intenso de abandono, isso pode gerar: hiperfoco na pessoa, tentativa constante de “ganhar” o amor dela, sensação de “se eu conseguir essa pessoa, eu finalmente vou estar segura”. Às vezes também existe uma crença interna de que “se a pessoa me rejeita, é porque eu preciso me esforçar mais”. Isso faz a pessoa se prender mais ainda em quem é frio, distante ou inconsistente, porque o desafio emocional vira uma espécie de “prova de amor”. Isso não é escolha nem fraqueza nem drama. É um padrão de regulação emocional e vínculo que pode ser trabalhado em terapia”.


Meu cérebro ainda está aprendendo que boas relações são estáveis, que eu não preciso interpretar o outro e que amor não é incerteza. Tudo na minha vida foi instável desde que nasci. Nunca tive nada seguro. Nunca tive um lugar para voltar. Nunca tive uma base. Nunca tive segurança. Meu cérebro aprendeu durante mais de 20 anos que o amor doía. Que ele era confuso. Que ele me faria duvidar de mim mesma. Que ele debocharia de mim. Que ele seria distante, inseguro, frio. A Fria foi uma personificação da vida, de que preciso olhar mais para mim, de que de alguma forma ainda estou machucada, que apesar de eu ter melhorado muito, ainda tem coisas que me doem e essa é uma delas; eu não preciso ser amada por todo mundo. Eu não preciso que todo mundo me ame, que me compreenda, que me acolha. Eu posso ser rejeitada – e seguir a minha vida normalmente. Eu não preciso ficar onde me fere, eu não preciso que pessoas que não querem me escolher me escolham. Eu posso ser livre da minha própria mente. Eu não preciso que a minha mãe me ame. Eu não preciso que a minha família me escolha. Eu não preciso que quem me rejeite me aceite. Eu posso simplesmente entender. Eu não vou morrer por isso. Eu continuo viva mesmo com tanta dor. Por que A Fria não me querer me dói tanto? Por que todas as pessoas que me envolvi também eram Frias? O que eu estou querendo dizer para mim? Eu vou repetir essa história até quando? De novo sendo aquela criancinha que só queria ser amada, de novo, de novo, de novo. Eu preciso me libertar disso. Senão não vai parar. Vai continuar aparecendo Frias no meu caminho, porque a vida é esperta. Ela dá o que a gente tem – e o que a gente precisa. E de alguma forma eu ainda preciso aprender a não esperar afeto de onde não sai nada. 


Quantas Frias vão ter que existir para eu começar a ser feliz?


A minha mãe foi a maior Fria que eu já conheci – e eu vivo procurando ela por aí. Ah, eu não quero mais. Eu não quero depender de quem me despreza para eu existir.


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