Nós nascemos para morrer
10 de julho de 2026
Convidei o cliente para ir a uma festa comigo. Era uma festa temática da Lana Del Rey. Eu adoro essa cantora, mas nunca tinha ido em um lugar que só tocasse ela. Me desafiei a ir. Não queria, ah, não queria. Não queria ver várias pessoas. Preferia continuar me isolando. Mas me desafiei, pensei "e se eu comprar o ingresso e só ir?". Então eu comprei em um impulso. Eu tinha encontrado esse cliente no sábado, na quarta nos encontramos de novo. Passou pela minha cabeça a ideia dele ir comigo. Percebi que se eu fosse sozinha seria mais difícil, então o chamei.
– Você está falando sério?
– Sim, compra o seu ingresso.
Ele não acreditou que eu o estava chamando. Nem eu. Eu disse que não me envolveria de novo com um cliente, mas a vida é tão curta...
Eu cheguei um pouco mais cedo que ele. Quando cheguei, tive uma baita surpresa: o bar era o mesmo do dia que saí do hospital psiquiátrico.
Espera aí, vou explicar.
Antes de ser internada de fato (sim, eu fui!), eu frequentei vários hospitais porque tinha muitas crises e tentava muito suicídio (teve um ano em que eu tentava a cada 2 meses). Então teve um dia em que eu estava com muita crise e percebi que iria tentar contra a minha vida, segui o conselho de uma psicóloga e fui procurar um hospital psiquiátrico.
Para quê?
Eu entrei nesse hospital e fui completamente negligenciada. Além de demorarem horrores para me atender, quando me atenderam, simplesmente não sabiam o que fazer. Eu vomitava no consultório de tanto chorar. Nesse dia, eu implorava para ser internada, pois eu ia tentar contra a minha vida. Eles disseram que não tinha vaga para eu ser internada. Me deram um remédio, que eu não tomei, e disseram que eu só poderia sair de lá se um responsável me buscasse. Eu não tinha responsável algum. Minha família estava nem aí. Eu disse que não ia passar o telefone deles, e que eles tinham que me liberar. Eles falaram que não poderiam me liberar naquele estado...
Então eu manipulei a enfermeira, fingi que estava bem e eles me liberaram.
No caminho do hospital, eu estava agoniada procurando um bar, uma adega, alguma coisa para esquecer que eu existia. Encontrei 4 pessoas andando e perguntei qual era o bar mais próximo.
– Quer ir com a gente?
A única mulher do grupo pergunta se eu queria acompanhá-los. Eu digo que sim, ela me pergunta o que eu estava fazendo, e eu digo que acabei de sair do hospício. Conto toda a minha vida para ela, e de como é difícil viver. Ela repete várias vezes para mim que é para eu continuar viva e que "a vida vale". De repente, alguém aparece com um giz e eu escrevo no chão "a vida vale", tomada pelas palavras daquela mulher. Nunca mais a encontrei. Ela foi um vulto na minha vida. Uma miragem. Um devaneio. Ela foi o meu remédio naquela noite. Talvez tudo o que eu buscava quando saí de casa era ela. Parecia que eu estava começando a entender que eu precisava ficar viva.
De repente, eu pisava no mesmo chão 5 anos depois. E já faz 5 anos que não vou em festas. Caralho. Fiquei maluca. Quem eu sou agora 5 anos depois?
Ele chegou. Nós conversávamos. Alternávamos entre entrar na balada, escutar as músicas e conversar fora dela. Nos tratávamos como casal. Uma hora ele me abraçou por trás, e eu senti um desconforto. Como se meu cérebro dissesse que ele estava perto demais. Depois, eu mesma fui trazendo ele para perto de mim. Terminada a balada, fui para a minha casa. Não teve programa esse dia. A gente saiu como amigos/namorados. Depois continuamos nos falando todos os dias. E minha cabeça oscilava: será que eu gosto dele? Será que eu posso gostar dele? Será que ele é confiável? Será que eu sou confiável?
Será que eu posso ser feliz?
Será que eu posso me permitir?
Será que pode ser leve?
Será que eu não vou estragar tudo?
Será que ele não vai estragar tudo?
Ele me perguntou qual a música mais famosa da Lana Del Rey, e eu digo "Born to Die", que significa "nós nascemos para morrer", em que ela vai atrás de um homem e encerra a sua vida com ele. Eu sempre pensei nessa frase. Eu sempre pensei na minha morte. Eu sempre quis a minha morte mesmo sabendo que ela é um fato consumado: eu vou morrer. Se existe uma certeza na vida, é a de que todos nós vamos morrer. Por que eu busco algo que já é meu?
Por que eu não acredito que posso viver? Se eu nasci para morrer, só me resta viver. E se eu tiver que viver algo com esse cliente, eu vou. Por que me privo? Por que queria que fosse diferente? Por que não quero acreditar que posso ser feliz? Que o amor também é para mim? Mesmo eu sendo puta, mesmo eu sendo estranha, mesmo eu sendo falha. O amor pode ser para mim. Fui negada do amor desde cedo. É difícil para mim acreditar que ele é acessível. Esse cliente me trata de uma forma que eu nunca fui tratada, ele tem atenção aos meus detalhes, ele se encanta pela minha história, ele me torna eu o assunto favorito dele. Não estou acostumada com isso. O último cliente que me envolvi nem um bom dia me dava, e eu ficava louca, ficava louca pensando nele. Querendo um resto dele. Uma parte dele. Ele não conseguia me dar nada, e isso me deixava presa. Eu queria mais, queria desvendá-lo, queria resolvê-lo. O amor matou a minha inocência. Eu tinha que fazer a minha mãe feliz mesmo que eu morresse um pouco mais. E eu tentava, eu tentava de tudo, mas nunca era suficiente. Eu não era suficiente. E ela jogava na minha cara que eu nunca seria suficiente para ninguém. Minha mãe dizia ler o futuro e dizia que o meu seria horrível. Eu acreditava em cada uma de suas palavras. Então cada pessoa que foi um pouco mais parecida com a minha mãe eu quis. Cada pessoa que me maltratou, que me machucou, que não me dava nada, eu quis.
Até entender que eu precisava matar essa mãe. Por isso terminei com aquele cliente. Eu precisava encerrar. Eu precisava aprender a sair de onde me faz mal.
Mas pelo jeito também preciso aprender a ficar onde me faz bem.
Esses dias minha terapeuta me disse que eu tenho sido muito acelerada e que isso tem me aproximado da minha própria morte, porque se sempre estou correndo, é porque sempre quero chegar ao fim das coisas. O fim da vida é a morte. Eu já passei por muitos fins, e, inconscientemente, às vezes vivo em função deles. Às vezes encaro minha vida como um fim. Esses dias, repeti várias vezes para minha terapeuta que eu seria sozinha para sempre, que ninguém me amaria, que eu nunca teria um amor. Eu determinando o meu fim.
Se nascemos para morrer, o que podemos fazer nesse meio tempo em que não estamos mortos?
No ano passado, vi a minha avó no caixão, cheguei a tocar nela para ver se ela estava morta mesmo, e ela estava. Então eu jurei para ela que viveria no seu lugar, pois me vi ali. Me imaginei. Refleti que um dia vai ser eu deitada no caixão. E quantas vezes a minha avó não teve o direito de viver?
O que me impede de viver?
Então decidi que irei dar uma chance para esse cliente. Não sei o que o futuro será, também não sei de nada. Não sei quando será o dia da minha morte. Enquanto isso eu vou viver.










