1 ano sendo garota de programa
31 de janeiro de 2026
O que aprendi nesse 1 ano sendo garota de programa? 1 ano parece pouco tempo e parece ser um tempo dos iniciantes. Com 1 ano, às vezes mudamos de vida, mas em geral a vida continua quase igual. Será que dá pra fazer tanta coisa assim em 1 ano? Será que dá pra se surpreender tanto em 1 ano?
Em 1 ano, eu vi a minha vida mudar completamente. Mudei meu emprego, mudei de casa, mudei de bairro. Mudei as minhas convicções, mudei a forma como eu enxergava o meu corpo, a forma como eu via o trabalho. Passei a gozar no trabalho. A Sol Rara foi um marco na minha vida. De repente, eu me vi sendo dividida em duas: a mulher que eu era e a mulher que eu ia me tornar. Estou no processo de me tornar essa mulher.
Nesse 1 ano, eu aprendi que o meu trabalho me regula, me ajuda, me reorganiza. Mas também que me tira, que me suga e me exige. Nesse 1 ano, eu sorri várias vezes e me entresteci em algumas. Eu comecei achando que o meu trabalho era uma brincadeira e algumas vezes fui engolida por ele. Eu me diverti, mas eu também lidei com coisas cruéis. Nesse 1 ano, a vida me mostrou que não existe romantismo no meu trabalho, mas, sim, uma verdade, verdade essa que com a minha inocência de quem não tem nem um ano na profissão existia.
Eu tinha uma inocência que me acompanhava desde o primeiro dia em que iniciei nesse trabalho. Lembro que comecei fazendo poucos programas porque sentia que era o suficiente. Eu ainda estava descobrindo, me experienciando. A cada programa que eu fazia, eu refletia se era isso que eu queria para mim. E o meu desejo por fazer mais programas foi aumentando até que eu fui entendendo que eu queria cada vez mais fazer isso. É verdade que até hoje eu vejo o meu trabalho como uma grande brincadeira, mas eu aprendi muito ao longo desse percurso e aprendi o quanto o meu trabalho pode doer também.
Eu sofri um golpe no mesmo dia que fiz um ano de profissão - e achei isso muito simbólico. A vida queria me ensinar alguma coisa. Eu precisava estar atenta. Infelizmente existem homens ruins que passam pelo meu trabalho e eu preciso entender que às vezes ele é mais que uma brincadeira. Mas foi no meu trabalho que muitas vezes eu encontrei motivos para seguir. Às vezes eu saía de casa pior e voltava muito melhor, como no dia em que o cara pagou três horas só para fazer massagem em mim - ah, como eu precisava disso! - e isso me fez muito melhor depois. Eu aprendi a ler os homens, a descobrir onde era melhor tocar em cada um, a fazer com que eles se encantassem por mim e deixar com que eles me fizessem cada dia mais mulher. Eu virei uma mulher depois que iniciei nesse trabalho, e existem pelo menos duas Sol Rara, aquela que os meus clientes conhecem e aquela que eu sou no meu dia a dia. É como se eu fosse uma persona para mim - eu me transformo em Sol Rara. E às vezes, tudo o que eu preciso no dia, é ser ela.
Mas também aprendi a não ver o meu trabalho como o centro da minha vida, como se eu só valesse quando sou a Sol Rara. Foi difícil. Eu me encontrava nesse personagem e não queria sair, eu queria ser a Sol Rara o dia inteiro, só não queria quando ela me decepcionasse, como foi no caso do golpe, e nem quando eu me decepcionasse comigo mesma, como quando eu não conseguia relaxar ao ponto de gozar. Quando iniciei nesse trabalho, eu gozava aos montes e depois fui gozando menos, fui perdendo o libido e o tesão na vida até me ver depressiva, não por causa do meu trabalho, mas pelas minhas questões pessoais. Me vi depressiva ao ponto de nem meu trabalho me fazer feliz porque eu não conseguia funcionar nele como a mulher que eu estava sendo. Eu tive a primeira decepção sendo garota de programa e isso foi terrível. Não existe nenhum lugar em que te preparam para isso. Mas mesmo assim, no final, me senti abençoada, já que colecionei muitos encontros maravilhosos ao longo desse 1 ano.
Eu comprei velas e mais velas, um bolo, e cantei parabéns para mim por viver 1 ano sendo garota de programa. Expondo isso, bancando isso e assumindo isso. 1 ano sem ter vergonha de ser quem eu sou. 1 ano me assumindo. Talvez a maior lição que aprendi é que sou muito maior do que eu imaginava. Que eu sou capaz. Que eu posso. Consegui viver esse 1 ano aquilo que eu queria viver, sem medo do preconceito. Consegui viver esse 1 ano sendo livre pela primeira vez. Isso é muito significativo para mim.
Aprendi também a me ver ainda mais no outro, como várias vezes que me pagaram só para conversarem comigo ou para fazer carinho em mim. Foi na minha profissão em que encontrei dignidade pela primeira vez. Em que eu fui vista. Me enxergaram sendo puta, mas também sendo ser humano. Muitos clientes já me pagaram para ouvir a minha história, para me ouvir. O sexo, na maioria das vezes, é a parte menor dos meus encontros, porque na maioria das vezes meus clientes querem me conhecer. Eles me humanizam. É verdade que também encontrei homens que só olhavam para o meu corpo, de alguma forma eu sei que sou um corpo para muitos que me procuram. Mas sempre tentei mostrar que eu tinha algo Raro e muitos homens enxergaram raridade em mim. Isso foi muito bonito de presenciar e sentir, porque não era algo que eu esperava, mas era algo que eu queria e precisava muito.
Encontrei homens que só exigiam de mim presença, homens que queriam muito me dar prazer e que até se frustravam quando não conseguiam. Me sentia protagonista. Nunca me coloquei na posição de ser um objeto de prazer para eles, eu sempre me senti um ser desejante e essa foi mais uma vitória para mim. Eu aprendi a não servir os homens, mesmo que boa parte da minha profissão exija isso. Eu aprendi a me divertir junto com eles. Claro que nem sempre eu tenho prazer e preciso me dispor a dar prazer para eles, mas essa parte do meu trabalho é tão pequena que nem me incomoda. Na maioria das vezes, eu consigo tirar uma casquinha e participar, sentir prazer junto, e isso foi uma conquista enorme. Eu era o tipo de mulher que me portava como objeto nas relações, e foi sendo garota de programa que aprendi a ser um ser que deseja, que coloca limite, que diz não. Sim, eu digo não para os meus clientes. E encontro homens que me respeitam, que não me veem como extensão do próprio ego, que me enxergam como pessoa.
Aprendi a transar melhor, a relaxar o meu corpo, os pontos que me dão mais tesão e os que me dão gastura, aprendi a não ter vergonha de sentir prazer, a me despir para um desconhecido e me desfrutar com ele, a esquecer todo mundo lá fora e lembrar que dentro do quarto eu posso sentir prazer, com um estranho, muitas vezes com um homem que estou vendo pela primeira vez naquele momento, e isso tornam as coisas ainda mais mágicas para mim. Entender que eu só preciso sentir, me deixar sentir e fazer com que o outro sinta. É uma profissão muito bonita, cheia de camadas. É como se a intimidade fosse tudo que importasse naquele instante, e muitos são os homens que estão mais sedentos por intimidade do que por corpo.
Aprendi a me virar do avesso, descobrir que eu gosto de ser puta, mas que sou muito mais que puta e que às vezes sou pura também. Esse caminho apenas começou, sinto que ainda vou viver muitas coisas sendo garota de programa. Estou animada.










