Humana, mesmo sendo puta

14 de dezembro de 2025

Meus amores, quero ser bem honesta com vocês. Esse de longe vai ser o texto mais sincero que postei aqui no blog. Quero mostrar a mulher por trás da Sol Rara. A prostituta que é humana, que erra, que tropeça, mas que tem autoconsciência sobre a sua própria história.


Bom, vamos lá: lembram da saga do texto “ele disse que namoraria comigo”? Trago atualizações. Tivemos o encontro semana retrasada, que mexeu muito comigo. Eu voltei para casa sentindo que realmente gostava desse homem ao ponto de namorar – e isso me bagunçou internamente. Eu não sabia o que fazer com esse sentimento. Sim, vocês leram e vocês sabem, ele dizia que queria namorar comigo e mostrava que gostava de mim. Mas aqui que entra o ponto crucial da história: ele não era consistente. Saímos pela primeira vez em outubro, ele me mandou uma mensagem na semana seguinte dizendo que queria sair comigo – depois desapareceu. Em novembro, ele me enviou um “oiee” e sumiu, voltou duas semanas depois dizendo que estava corrido, aí conseguimos marcar. Depois desse último encontro, dois dias depois ele me envia “oiee” com um coração – e desapareceu. Vocês percebem a dinâmica? A forma dele se portar com esses sumiços começou a mexer comigo de tal forma que passei a semana inteira ansiosa, com dificuldade de me concentrar nos meus compromissos e percebi que isso estava atrapalhando até no meu trabalho. Eu ficava pensando “por que esse homem some tanto?”, até que tive a conclusão de que ele tem medo do vínculo. Ele tem medo de se apegar, de se apaixonar e foge quando o sentimento está alto. Por mais que eu entendesse que os sumiços dele via de um lugar de incerteza sobre o que a gente seria, esse vai e vem inconstante me ativou gatilhos muitos profundos, marcas que eu tenho desde criança: a do abandono, da sensação de não ser escolhida e de não estar sendo vista. Fui abandonada diversas vezes ao longo da minha vida. Eu não fui escolhida pela minha própria mãe, que me rejeitou desde quando eu nasci. Sem eu fazer nada, somente pelo fato de existir, eu era crucificada, invejada e odiada. A minha mãe tinha ódio de mim, pois ela queria ser como eu. Ela queria ter o corpo que eu tinha, por isso dizia todos os dias que o meu corpo era feio. Ela me excluiu como ser humano. Eu não fui vista, não fui respeitada, não fui tratada com dignidade. A minha mãe também era inconstante: eu nunca sabia o que faria ela surtar, brigar comigo ou sumir. Ora ela dizia que fazia tudo o que fazia comigo porque queria o meu bem, ora ela dizia que fazia tudo o que fazia porque eu merecia. Merecia ser tratada com desprezo. Quanto ao meu pai, ela via o quão a minha mãe era cruel comigo e tentava me defender – mas nunca conseguia sustentar. A minha mãe me torturava, e o meu pai aceitava. Depois disso fui expulsa várias vezes de casa e passei três longos anos da minha vida tentando me matar, porque eu não aceitava a vida que eu tinha. Essa mãe que me odeia, esse pai que não me defende. A última vez que falei com a minha mãe, ela me disse essas palavras: “agora você não tem mais mãe, eu não sou a sua mãe, se você quiser se matar, que se mate longe de mim”. Aquilo me doeu fundo. Eu peguei o meu RG, meu cartão de débito e fui embora, sem levar nenhuma roupa, sem levar a minha família comigo. Nunca mais falei com a minha mãe desde então. Eu sou uma sobrevivente, mas uma sobrevivente como um soldado que volta da guerra: cansado e cheio de feridas. Hoje, eu estou muito melhor, muito melhor mesmo. Faz quatro anos que não tento mais suicídio e faz quatro anos que decidi viver a melhor vida por mim. Mas ainda tenho marcas profundas, que trato comigo mesma, na terapia e na espiritualidade.


Por que estou contando do meu passado? Porque quando ele sumiu, minhas feridas foram ativadas. Na minha cabeça passava “essa vai ser mais uma pessoa que não vai ficar?”. Eu me iludi. Eu acreditei nele fundo demais. Quando ele disse que namoraria comigo, mesmo eu sendo uma garota de programa, algo se acendeu em mim. Eu me senti vista, acolhida e de alguma forma amada. Um homem se dispôs a me aceitar, a aceitar quem eu sou. Isso não é bonito? Mas a verdade é que ele não mediu o peso das próprias palavras, porque ele não sabia o que isso ativar em mim. Não acredito que ele falou isso para me machucar, ele falou isso porque estava sentindo na hora, foi verdadeiro. Mas nem ele sabe se sustentaria namorar comigo. Eu causo insegurança nos homens. Eu me deito com outros homens. Um homem que aceite namorar comigo precisa estar muito seguro da sua decisão. Se ele tivesse seguro dessa decisão, ele não sumiria, ele não me deixaria falando sozinha. A verdade é que ele não sabe o que quer. Ele deve sentir muito desejo e vontade de ficar perto, mas bancar um namoro comigo precisa de uma maturidade que ele não mostrou. Fiquei insegura. Fiquei ativada. Fiquei ansiosa. Fiquei lembrando de tantas promessas que me fizeram e não cumpriram. Fiquei pensando que ele não enxerga o meu valor como mulher. Eu sou a puta. Quando ele quer sentir a minha vagina, ele me procura. Depois some, some enquanto diz que namoraria comigo. Fiquei mal. Mal mesmo. Então eu falei: quer saber? Vou em um bar beber. E isso me deixou pior, me deixou mais carente e vulnerável, então eu não me aguentei e mandei uma mensagem para ele.


– Oi, posso falar com você?

– Oie, mal a demora, pode sim.

– Eu sei que você é meu cliente, mas eu sinto algo por você que vai além disso. Queria entender melhor o motivo dos seus sumiços.


Então ele me enviou um áudio dizendo que estava muito corrido. Sério, gente, de novo a desculpa esfarrapada de que estava corrido. Na página dele no Twitter, enquanto ele dizia que estava corrido, ele tinha tempo para repostar várias garotas nuas. Não é sobre ter ciúmes, mas é sobre eu entender que ele não me responder não foi falta de tempo. Das duas ou uma: ou era falta de interesse, ou era medo de se envolver. E eu aposto mais na última alternativa. Aí eu mandei um áudio para ele dizendo que eu gostava dele e que agora ele sabia, ele perguntou onde eu estava, entendi que ele queria me encontrar. Mas depois sabe o que ele fez de novo? Isso mesmo, ele sumiu. Ah, gente, fiquei muito chateada e escrevi para ele desconsiderar tudo, que eu tinha bebido demais, e bloqueei ele. Depois desbloqueei porque achei muito drástico o bloqueio. Depois segui a minha vida. Depois fiquei pensando: esse não é o padrão de relação que eu quero.


Eu quero homens consistentes, homens que não fujam, homens que não sumam. Homens que fiquem, homens seguros, homens estáveis. Quem nunca bebeu e teve uma atitude impulsiva? Fiquei pensando para me consolar. É que a bebida ampliou a minha ferida de rejeição. Aquela garotinha de cinco anos que só queria ser amada. Que queria ter uma família normal. Que não queria ser abandonada. Eu sou um ser humano cheio de contradições. Eu queria ele? Sim. Mas esse vai e vem não tem me feito bem. Eu não sei o que esperar dele, não sei se ele fica, se ele some de vez. Mas foi duro entender que não, ele não quer namorar comigo. Ele quer ter o meu corpo, a minha atenção, o meu afeto – mas de forma calculada. Ele não tem sustentação para bancar namorar uma mulher como eu. Talvez ele não tenha ideia do quanto os sumiços dele me deixam mal. Ele não sabe o que se passa na minha cabeça, não sabe a minha história, não sabe nada. Mas eu sei da minha história e eu sei de toda a dor que eu vivi. Eu não quero mais instabilidade, eu não quero mais preencher o vazio que as pessoas me causam, não quero buscar respostas sozinha. Por isso decidi dar um basta: nunca mais irei atendê-lo. Ele quer ser o meu cliente enquanto me vende a ideia de que namoraria comigo. Eu caio nessa ilusão e saio machucada. Não vale a pena. É a minha saúde mental que está em jogo. Ele não é apenas um cliente para mim, na verdade ele só foi o meu cliente porque pagava, porque nada que eu senti com ele foi profissional. É muito verdadeiro, e eu volto para a casa esperando um sinal. Que não existe. Quando passamos por abandono tantas vezes na vida, o nosso corpo registra uma dor que nem temos dimensão. Eu vejo isso pela minha cachorra. A minha cachorra foi abandonada grávida na rua, depois foi parar no canil. Quando ela percebe que eu vou sair de casa, ela me olha com o olhar mais triste do mundo. Quando eu volto, ela fica desesperada. Ela tira objetos do lugar se eu demoro algumas horas para voltar. Ela entra em pânico. E quando eu chego, ela morde o brinquedo sem parar, descarregando a ansiedade. Na verdade, ela não morde – ela destrói. A verdade é que toda vez que eu saio de casa a minha cachorra acha que eu abandonei ela, porque ela tem a memória do abandono registrada no corpo. Essa memória é funda e não importa quanto carinho eu dou para ela, ela nunca acredita que eu vou voltar. Vejo que a minha cachorra é um reflexo de mim mesma. Eu também fui abandonada, eu passei fome, eu fui torturada, abusada, negligenciada. Eu vi de perto o lado mais cruel do ser humano. Qualquer insegurança, me desespera, me engatilha, me faz duvidar de mim mesma. Quando ele some, eu penso “então tudo o que ele falou foi mentira” e os meus sistemas correspondem me dando uma sobrecarga de ansiedade. Isso é a memória do trauma. Por isso eu só posso me relacionar com alguém que seja consistente, que seja presente, que não suma. Eu não mereço sofrer assim.


A verdade, meus amores, é que ele não está pronto para namorar. E muito provavelmente não está pronto para namorar uma mulher como eu, pois eu também devo ativar inseguranças nele. Poxa, eu transo com vários caras, não é fácil para um homem lidar com isso. Existe o medo de ser rejeitado, de não ser escolhido, de não ser o suficiente, de ser julgado, difamado e preterido. Existem muitos medos ao se relacionar com uma acompanhante. Eu entendo ele. Mas eu também sei dos meus próprios medos e que eu não quero me apegar a fantasias. Eu sei do quanto eu sou incrível. Eu sei que eu não tenho que implorar por afeto, eu sei que posso ser amada por aquilo que eu sou, mesmo sendo uma garota de programa. Eu não sou menos digna de amor porque sou uma puta. Eu também mereço ser amada. Eu também sou um ser humano. Eu sou muito mais do que uma puta. E eu não quero ser uma puta na vida dele, não mais. Eu gostei dele o suficiente para me sentir tocada de um jeito que não consigo mais ser profissional. Ele me marcou, ele não era um cliente, mas a possibilidade de me sentir amada mesmo sendo quem eu sou. A possibilidade de ser vista e desejada, não só pela carne, mas pelo o que eu tenho no meu coração. Esse é o texto mais difícil que eu já escrevi e que vou ter a coragem de publicar. Um texto que nasceu das minhas vísceras, da minha profundidade como mulher. Ele foi um quase. Ele foi um sonho. Sinto que eu sou um sonho para a minha cachorra, porque agora ela é amada. Por isso ela tem tanto medo de perder. Eu nunca experimentei a sensação de ser escolhida. Mas eu sei que um dia eu vou. Um dia alguém vai me amar mesmo eu sendo essa puta. Enquanto esse dia não chega, eu escolho a mim mesma.



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