Estou namorando e...
08 de agosto de 2026
De repente, comecei a namorar. Sumi do blog porque estava vivendo. Conheci um cliente, a gente se conectou bastante, até que ele começou a fazer parte da minha vida, por fim, me pediu em namoro, e eu aceitei. É estranho dizer isso para mim mesma, que estou namorando. Eu não imaginava isso. Eu não esperava por isso. Não sabia que eu pudesse encontrar uma pessoa que eu fosse suportar. Tem gente que me pergunta "ele te aceita?", e na verdade as pessoas nem têm dimensão que sou eu que custo a aceitar.
Ele não se importa com a minha profissão e, se isso fosse um problema, eu não estaria com ele. Nos conhecemos no contexto de trabalho, ele era meu cliente. Eu só poderia conhecer uma pessoa assim. Se não estou na minha casa ou trabalhando, estou indo a algum lugar em que terei poucas interações com as pessoas. Gosto de teatro, museus e cafeterias, tudo que se dá para apreciar sozinho. Sempre fui terrivelmente sozinha e isso nunca me abalou. Nunca quis alguém. Depois que fui expulsa pela última vez da casa dos meus pais e fui parar em um hospital psiquiátrico, tudo mudou para mim. Aquela personalidade que queria pessoas por perto foi morrendo. Eu não queria as pessoas, na verdade eu tinha medo delas. E se elas me machucassem? Vocês não têm ideia de quantas vezes tentei suicídio porque a pessoa que eu estava me envolvendo esfriava comigo. Sempre me sentindo vazia por não ter as pessoas. Até que me cansei, me fechei e não quis mais me abrir. A cada ano que se passava, eu me fechava ainda mais, sem previsão de abertura. A cada ano que se passava, eu me tornava mais intolerante às pessoas.
Esse rapaz que estou namorando foi muito gentil e demonstrava uma abertura que eu nunca vi para estar comigo. Fui deixando ele entrar, mas depois que ele me pediu em namoro, um dia depois brigamos. Ao longo da semana eu me frustrava com alguma coisa que ele fazia e não queria mais que ele falasse comigo. Ele não fazia nada grave, coisas pontuais, mas que me irritavam completamente e passava pela minha cabeça ignorá-lo. Acho que vivi tanta coisa na minha vida, e perdi tantas pessoas, e tive que matar tantas pessoas pelo caminho, que eu não tenho mais paciência para me vincular. É como se eu procurasse, no milímetro, o erro do outro, para eu o culpar e dizer que não quero mais. Aprendi, ao longo da minha vida, a resolver os conflitos me afastando dos outros. Me afastei de toda a minha família, porque foi necessário, mas tem uma parte de mim que acha necessário sempre se afastar. Tenho uma baixíssima tolerância aos erros dos outros, tanto pessoas, como bichos. Ontem estava fazendo o treino de independência da minha cadela e ela se levantada a cada dez minutos para ver se eu cheguei. Ela ficou tranquila, não latiu e esperou, mas só o fato dela ter zanzado pela casa me irritou, já que ela não tinha feito isso no dia anterior. Cheguei em casa e mandei ela ir para cama dela, não queria proximidade. Eu faço isso sempre quando ela me frustra. Quando ela me frustra, eu não quero saber dela, às vezes chamo ela até de feia (eu sei que isso é infantil). E essa talvez seja uma parte infantil de mim, uma parte criança que não sabe tolerar os conflitos sem afastar o outro. Aprendi que amor é conflito e conflito é corte. Mas também tenho entendido que se eu quiser um relacionamento, vou ter que aprender a tolerar o outro.
A minha atitude primária é querer que o outro vá embora. O outro é horrível. E em um segundo eu apago todas as qualidades da pessoa. A Alice, minha cachorra, ficou bem no treino, mas o fato dela me procurar na porta me irrita. Ah, eu queria que ela fosse perfeita. Eu queria que ela não gostasse tanto assim de mim, que ela não sentisse tanta saudade assim de mim. Eu tenho dificuldade de receber afeto. Quando meu namorado fala que me ama ou algo do tipo, eu sinto uma vontade de sair correndo. Não, não é possível que seja verdade. Eu não quero acreditar. Minha cabeça repete "será que alguém é capaz de te amar?". Esses dias, contei para uma pessoa que estava namorando e que eu "estava sem acreditar, pois não sabia o que ele viu em mim", e ela disse "mas você é linda! Olha esse cabelo" e eu fiz uma cara de desdém. Para mim, é muito difícil conviver com a ideia de que posso ser amada. Até hoje acho que minha cachorra não me ama. Cresci ouvindo que ninguém me amaria e acreditei em cada palavra. Meu cérebro foi construído na dor. Esses dias uma pessoa no meu Instagram disse que eu me vitimizo demais por contar o que eu vivi. Mas fiquei pensando que se ela vivesse o que eu vivi talvez não estivesse mais aqui. Talvez enlouqueceria. Talvez pararia na rua, seria uma drogada, ou uma pessoa profundamente infeliz, com uma depressão que funda em todos os seus poros. Eu ainda consigo levantar da cama. Eu já fui uma drogada, mas não sou mais. Eu não parei na rua. Eu enlouqueci, mas consegui me recuperar. Já tive uma depressão profunda e acreditei que nunca poderia ser feliz. Mas eu me reergui e preciso contar a minha história como quem precisa respirar. Ainda acho absurdo tudo que eu vivi e não me conformei. Será que um dia vou me conformar? Acho um absurdo eu acreditar que não posso ser amada. E não, não é porque eu sou puta, é porque eu sou eu. Quais experiências que eu vivi que me trouxeram esse pensamento? Quais dores eu senti para chegar nessa conclusão? Quais foram os cuidados que me faltou para eu achar que não sou digna de afeto? Nem um cachorro pode amar? Quem eu sou? Eu sou tão desprezível assim?
Queria que esses pensamentos fossem uma vitimização, mas quase perdi a vida por eles, tentando suicídio a cada 3 meses porque acreditava fielmente na minha mente. Agora eu duvido. Duvido, sim, por isso estou namorando. Acho que meu impulso de afastar as coisas vem da ideia de eu querer acabar de vez com qualquer vínculo. Como se eu não pudesse estar perto de ninguém. É uma condenação. Minha própria mente se condenou por tudo o que eu vivi. Se eu pudesse ter um poder, eu queria poder apagar meu passado. Eu queria ter nascido hoje com a chance de viver de novo. Porque viver através da vida que me deram por vezes é muito difícil. Minha mãe não está mais aqui, é como se ela tivesse morrido. Mas todas as suas frases, suas humilhações e seus maltratos estão tatuados no meu corpo. Eu olho meu corpo e às vezes lembro dela. Um dia falei para minha terapeuta que queria eliminar ela de mim. Eu sei que isso não é possível, mas queria criar um mundo em que tudo que vivi através dela não me afetasse mais. Tem uma teoria que diz que a cada 7 anos o nosso corpo se renova, e se isso for verdade, um dia terei um corpo em que ela não terá tocado, um dia terei uma vida só minha, um dia viverei um relacionamento feliz. Um dia acreditarei que a minha cachorra me ama, que meu cabelo é bonito e que eu posso ser amada. Espero por esse dia.
(Nem menciono isso no texto, mas não irei parar de atender. Meu trabalho não é uma questão no meu relacionamento).










