Vou continuar atendendo
20 de agosto de 2026
Comecei a namorar e alguns clientes acham que não vou mais atender. É curioso a reação das pessoas. Tem gente que me pergunta se ele sabe, e eu fico pensando o quanto deve ser difícil esconder do que a gente trabalha para alguém tão próximo. Eu deveria esconder? Tem gente que me pergunta se ele aceita, mesmo depois de eu dizer que ele não se importa com a minha profissão. O que as pessoas querem perguntar quando elas perguntam isso? Teve gente que já me perguntou se ele gosta de ser corno, como se só fosse possível namorar uma gp se você ver a profissão dela como fetiche. Já me falaram que eu tenho um relacionamento aberto, mesmo eu e meu namorado tendo a plena consciência de que o nosso relacionamento é fechado.
Por que uma acompanhante namorar causa tanto tilt na cabeça das pessoas?
As pessoas, em geral, acham que uma gp está esperando ser salva. Temos a ideia de que os homens nunca nos assumiriam, afinal, somos putas. O homem tem um "honra" invisível, na qual ele precisa proteger. Ele não pode deixar com que "a mulher dele" fique perto de outros homens. Temos, em geral, a ideia de que se relacionar com o outro é uma espécie de propriedade, de que somos detentos um do outro, senão, isso não é um "relacionamento". Aprendemos, com os nossos pais, a sacralizar os relacionamentos. Como se duas pessoas, fossem uma só, e elas não pudessem ter uma vida para além disso. Eu vejo os meus pais, eles aprenderam a viver um através do outro e não sabem mais quem são individualmente. Não tem amigos, não tem família, não tem nada além deles mesmos. Eles se bastam. A ideia pobre que a gente tem de relacionamento é que um tem que bastar o outro. É uma ideia cafona, simplista, rasa, mas confortável. Olhar para posse, o desejo de fazer com que o outro seja só nosso, é muito mais difícil. Isso não quer dizer que eu tenha um relacionamento aberto, eu só tenho um relacionamento em que eu não preciso me privar para caber nele. Eu sou aceita com as minhas peculiaridades. Aliás, a minha profissão nunca foi um tema a ser debatido no meu namoro. Sempre foi algo normal, sim, normal. É isso que as pessoas não entendem.
Meu namorado nunca precisou aceitar o que eu faço. Também nunca me coloquei nesse papel de explicar algo para ele nesse sentido. Ele me conheceu e concordou em seguir comigo do jeito que eu era.
A minha profissão nunca foi algo que ele precisou permitir.
Minha vida não mudou porque agora tenho um relacionamento. Gosto de trabalhar com o que eu trabalho. Se minha vida ficasse pesada por conta dessa relação, eu certamente não namoraria com ele. Acontece o contrário que muitas pessoas pensam: meu namorado vibra com cada cliente que eu atendo, pois assim eu tenho mais dinheiro. Ele quer me ver crescer. Não me poda. Por que as pessoas acham que se relacionar com um homem é ser limitada? Parece, no fundo, que nós que somos prostitutas não podemos ocupar o papel de ser amada. Como se nós não fôssemos dignas disso, afinal, de novo, somos putas. O que significa que os homens "usam e nos descartam". Somos um corpo a ser aproveitado, e só. Não temos histórias, não somos seres humanos, não temos profundidade. Acho que esse espanto de tantas pessoas me verem namorando nasce disso. Um preconceito silencioso que ronda o inconsciente delas. Eu não as culpo, não mesmo. Crescemos em uma sociedade extremamente conservadora e machista. Muitos de nós ainda não entendemos, no nosso inconsciente, que uma puta é um ser, ser de história, ser humano. Que somos mais do que isso. E que o nosso trabalho não nos reduz. Não nos desumaniza. Qual o problema de cobrar para fazer sexo? Por que isso é visto como um problema? Por que somos consideradas sujas por fazermos isso?
Sou dona do meu tempo e do meu corpo com a minha profissão. Meu corpo não é do meu namorado, é meu. Fazer sexo com o outro não significa que eu quero construir uma relação com esse outro. Aliás, para mim, fazer sexo é a coisa mais normal do mundo. Sacralizam demais essa ação. Uma mulher que transa por dinheiro não tem que viver à margem por isso. Podemos ter um relacionamento, podemos ter uma família, podemos ser felizes e sermos seres humanos incríveis.
Nunca pensei que o amor não era para mim porque eu sou puta. Nunca me condenei a isso. E talvez eu abri o meu próprio caminho por isso. Encontrei uma pessoa que simplesmente não se importa com o meu trabalho. Que não briga comigo por isso. Que fica com a minha cachorra para eu ir atender, que me espera em casa depois de eu atender um cliente, e que me espera sorrindo. Sim, me sinto muito sortuda por isso, não vou negar. Sei que muitos homens não teriam essa maturidade, muitos homens estão permeados pelo machismo, pela posse, pelo ciúmes. Acho que eu também passo muita segurança para o meu namorado, pois eu nunca o provoquei, sempre falo do meu trabalho como trabalho para ele. Mas talvez nós fomos duas pessoas, que se encontraram pela vida, e se entenderam facilmente. Uma vez li que o amor de verdade era fácil, e é isso que eu sinto. É literalmente fácil. Leve. Sereno. Sem picuinha, sem drama. A maior dificuldade no meu relacionamento são os meus traumas, é eu me permitir amar e ser amada. A minha profissão é fichinha. Desejo que todas as garotas de programa do mundo que queiram um dia ser amadas sejam. Sejam de verdade. Já somos muito julgadas, apedrejadas pelas pessoas. É muito bom ser acolhida por quem nós somos, é mágico ser vista como nós somos e podermos seguirmos a nossa vida tranquilamente. É por isso que eu deixo meu veredicto: vou continuar atendendo. E continuar também questionando quem me questiona.










