Psicanalista, garota de programa, escritora...
05 de setembro de 2026
Quantas coisas eu serei nessa vida? Eu tenho necessidade do grande desde pequena. Desde criança, eu fazia assim a minha oração para Deus: papai do céu, me dá uma vida grande. Eu não gostava da minha vida. Definitivamente, não gostava. Todos os dias eram iguais. Minha mãe me maltratava, meu pai acobertava, eu era a melhor aluna da sala, a professora me amava, nos finais de semana eu não sabia o que fazer. O que eu ia fazer da minha vida? Eu não gostava de brincar, ficar do lado da minha mãe era insuportável, eu era uma criança, não podia decidir o que eu faria com a minha vida. Eu me refugia na escola, nos estudos. Acho que os estudos me salvaram. Se eu não tivesse passado na USP, com certeza viraria moradora de rua. Por quê? Porque a minha vida já não tinha propósito. Às vezes, o que me acalmava era ir para aula e escutar o professor. Minha cabeça abria. Eu via que o mundo era muito maior do que a minha realidade. Minha necessidade de fazer com que a minha vida tivesse sentido. Eu encontrei parte desse sentido nos estudos. Era a parte boa da minha infância, a escola. Guardo lembranças saudosas como se uma parte minha nunca tivesse crescido. Uma parte minha é da escola. E muito por causa disso eu tenha me tornado professora. Porque precisava devolver para as crianças o que eu senti na escola.
Quando me tornei garota de programa, ficou uma lacuna. Eu estava terminando de me formar na faculdade. Fiquei, portanto, três meses sem estudar depois que me formei. Quase enlouqueci. Senti um vazio. Eu prometi que não entraria em outra instituição tão cedo. Passei seis anos na USP. Vivi muita coisa e precisava descansar. Mas eu não consegui. Eu definitivamente não consegui. Eu precisava estudar, eu precisava aprender algo novo. Eu tenho muita sede de sentido, de descoberta, de conhecimento. Eu não estava conseguindo "só" ser garota de programa. Eu precisava de mais. Não é que ser garota de programa me reduzisse, eu só acho que eu não sou uma pessoa que consegue ser uma coisa só. Não consigo me definir. Sou complexa demais. Nunca consegui ter um trabalho só. Eu achava que isso era fruto da minha instabilidade, quando eu era instável, nos meus anos insanos. Mas não. Isso faz parte da minha personalidade. É como se tivesse várias Sols. Inclusive, inventei a Sol Rara porque estava cansada de ser eu. Eu não queria ser só eu. Eu queria ser uma outra coisa.
Definitivamente, não sou como muitas pessoas. Eu tenho necessidade de me fragmentar, de ser várias. Se eu não estiver fazendo isso, fico depressiva. Comecei a escrever um livro, mas eu já sei que eu sou escritora, queria conhecer uma coisa nova sobre mim. Você sente isso? Essa vontade de se descobrir? Então comecei a estudar psicanálise porque passei anos em consultórios. Passei anos sendo a escuta de alguém. Sendo o caso a ser estudado. Um caso "difícil", como já disseram isso para mim. Hoje, não sou mais um caso difícil. Eu me superei. Eu consegui sair do lixo. Então surgiu uma necessidade dentro do meu coração de ajudar pessoas a saírem também. Eu venci o suicídio. E venci as marcas da minha família. Uma família que me colocou na rua, literalmente. Eu consegui. Então me vi como alguém que poderia compreender as pessoas também. Já passei por tanta coisa que hoje compreendo todo mundo. Já fui desquerida, louca, puta antes de ser puta, suja, lixo. Já me disseram e me trataram como se eu fosse tudo isso. Até em um clínica psiquiátrica eu estive. Sei como é sofrer, ah, isso eu sei demais. Pensei que eu queria isso, ouvir o sofrimento das pessoas e tornar claro para elas as suas angústias. Então estou me formando em psicanálise. Comecei a atender como estágio na semana passada. Antes de atender como psicanalista, e depois também, eu fiz encontros como garota de programa.
Foi divertido poder ser três ao mesmo tempo no dia: eu, a psicanalista e a garota de programa. Sim, fiquei cansada. Às vezes, eu ficava cansada pelo encontro, às vezes pelo paciente, às vezes pelos dois. Mas sabe o que eu senti, que eu não sentia há tanto tempo? Sentido. Eu me encontrei sendo garota de programa, mas tinha sede de mais. A psicanálise tem dado contorno a essa sede. Tenho outras coisas no meu dia, agora também estou namorando, então estou sentindo um pouco de loucura nisso. Como se fosse bom, mas também fosse perigoso, porque eu sei que eu tenho que encontrar tempo para mim. Eu vou encontrar. Eu sei que eu vou encontrar. Mas às vezes fico pensando, será que sou a primeira garota de programa a viver isso? Estou sendo amada dentro de um relacionamento, enquanto atendo meus clientes e sou a escuta de pessoas que precisam de escuta?
Se alguém me dissesse há cinco anos atrás que essa seria a minha vida, eu não acreditaria. Eu achei que estaria morta. Eu achava que eu não tinha sorte, mas se Deus existe, se papai do céu existe, ele escutou o que eu pedi. Eu pedi uma vida grande, e acho que eu o que eu queria dizer e não sabia, era que eu queria uma vida autoral. Uma vida inventada por mim. Uma vida em que eu escrevo. Uma vida que até na dor tem memória, tem história para contar, tem um texto, tem um livro. Tem eu. Esse ser meio doido que não cansa de inventar sentido. Eu vivi a vida toda sem sentido. Eu achei que não estaria mais aqui. Agora, eu faço o que eu quiser. Eu realmente faço o que eu quiser. A minha vida é completamente minha, e, isso, é uma dádiva.










