Uma caralhada de coisas
30 de outubro de 2026
Meus amores, passei um mês muito difícil. Depois que terminei o namoro, entrei em uma fase depressiva. Acho que estava processando. Não consigo chorar, não consigo sentir as minhas emoções, então quando fico muito triste, eu me deprimo. Esse foi o motivo também de eu ter me afastado do blog. Eu não queria escrever. Eu me afasto da escrita quando estou mal. Me afasto de várias coisas. Mas também continuei trabalhando, atendendo como garota de programa e atendendo meus pacientes sendo psicanalista. Inclusive, queria escrever sobre isso, porque tive que "demitir" um paciente. Também tive que demitir um cliente esses dias, um cliente tão ruim que nem quis escrever no blog. Percebi que nos últimos dias tenho tido clientes que não tem sido tão bons. Acho que quando a gente está mal, as coisas ruins viram uma escadinha. Então acabei atraindo homens que não foram muito bons comigo.
Mas essas coisas passaram. Já tem algumas semanas que estou muito melhor. Não estou mais depressiva. Mas queria contar sobre esse paciente que tive que dispensar.
Esse paciente já era estranho para mim. Sim, gente, temos que confessar, nós que somos piscanalistas julgamos, sim (no off, claro). Quando eu era professora, eu tinha meus alunos preferidos e alunos que eu detestava, mas tentava tratar todos iguais. Sendo psicanalista, isso também acontece, então eu lembro que desde a primeira sessão algo muito preciso me incomodou: ele não falava nada sobre a própria vida! Literalmente nada! Ele não respondia nenhuma pergunta que eu fazia, falava sozinho a sessão inteira. E sobre o que ele falava? Ele falava sobre o sentido da vida, o tempo todo! Ele ficava filosofando o tempo inteiro, filosofia essa que não levava a nenhum lugar. A filosofia não era um caminho para chegar até ele, sabe? Muitas vezes, pareciam vários discursos soltos que não produziam finalidade.
Deixei algumas sessões passarem e deixei ele falar livremente para ver se esse discurso nos levaria a algum lugar. Não, nada. Eu precisava saber algo sobre ele. Eu precisava que ele respondesse as minhas perguntas. Então mais ou menos na sexta sessão, eu fiz ele falar sobre ele e chegamos a um ponto de que ele era terrivelmente sozinho. Esse discurso fazia as pessoas se afastarem dele. As pessoas simplesmente não conseguiam se aproximar dele porque achavam ele bizarro. E o paciente só se interessava por pessoas nas quais poderia discursar sobre o sentido da vida. Às vezes, parecia que ele estava em surto psicótico. Como uma pessoa só produz um discurso o tempo todo?
Enfim, pensei "que bom! Estamos avançando. Ele conseguiu falar sobre ele e pode ser que siga assim as próximas sessões". Gente, eu me enganei, me enganei tão feio! Comecei a atender agora e ainda sou muito ingênua, porque na sessão seguinte ele me diz que não quer, simplesmente, falar sobre ele, que está se sentindo julgado por mim e que quer continuar falando sobre o sentido da vida. Eu pergunto o motivo dele estar se sentindo julgado por mim e ele diz que percebe que eu não aceito bem o discurso dele. Acho que ele teve essa visão porque eu comecei a querer saber sobre ele e não deixava mais ele falar livremente. Teve uma sessão que perguntei três vezes a mesma coisa para ele me responder e ainda disse que ele não estava me respodendo. Lembra que eu escrevi que ele não respondia as minhas perguntas? Então, era muito chato isso, e comecei a me impor na sessão para ele me escutar porque ele, simplesmente, não me escutava.
Mas aí, gente, eu não me aguentei! Ah, eu já estava cansada desse paciente e disse a ele que eu não conseguia analisá-lo, já que ele não queria falar sobre ele e esse discurso do sentido da vida, a meu ver, não estava produzindo nada. Expliquei que não estava o julgando, essa nunca foi minha intenção, e sim, que queria conhecê-lo. Mas que também deixei ele falar por quatro sessões sobre o sentido da vida, até para analisar esse discurso e ver o que ele produzia, mas que cheguei a conclusão que ele só me impedia de acessar o paciente. É como se esse paciente se defendesse, uma dificuldade de se olhar, então ele procura resposta no externo, mas se frustra porque sempre está vazio. Essa é a minha hipótese clínica. Eu percebi que esse discurso trazia um sofrimento terrível para vida dele, além de fazer as pessoas se afastarem dele, seja por receio, vergonha, tédio ou medo, ele também não conseguia produzir muita coisa na vida prática porque estava preso no plano das ideias. É como se ele sempre estivesse pensando no mundo, nunca em si, nunca nos seus objetivos. Ele tinha um medo absurdo de falar de si. De se descobrir. De entender o quão estava sozinho. Do quão sem perspectiva estava. Eu não posso expor mais do que já estou expondo, mas ele passou a vida toda trabalhando com algo que achava que o vazio dele seria preenchido. Ele sempre achava que o vazio dele seria preenchido pelas coisas externas. Nunca de si. Ele falava várias passagens, quando eu conseguia entender o discurso dele, que era deveras confuso, de que ele se sentia angustiado por pensar sobre o sentido da vida e nunca achar uma resposta. E quando eu apontava essa angústia, que ele mesmo dizia, ele desconversava, dizia que pensar sobre o sentido da vida o fazia muito feliz.
Eu encerrei. Eu falei para ele que não tinha condição de analisar um paciente que não quer falar de si. E encerrei porque estava cansada. Porque ele invalidou as minhas técnicas, porque ele não queria me ouvir, porque ele não respondia nenhuma das perguntas que eu fazia, porque eu sentia que estava tirando leite de pedra. Senti uma defesa enorme sobre ele não querer falar de si, mas não tinha mais paciência para trabalhar com ele. A forma que a gente encerrou não foi boa. Eu estava falando, e ele me interrompeu dizendo que não tinha nada para ouvir, já que eu tinha encerrado o atendimento. Eu falei "tá bom. Boa tarde" e dei um sorriso seco. Desliguei a chamada.
Depois disso, fiquei muito mal, mais mal ainda do que já estava. Lembra que eu estava me sentindo depressiva? O estado só aumentou. Fiquei terrivelmente mal. Não queria passar por isso. Não queria que um paciente achasse que eu estava o julgando. Mas a minha analista disse que posso passar por isso outras vezes, já que os pacientes transferem uma série de coisas em nós. E como eu vou lidar com isso?
Decidi ir, três dias depois, em uma peça de comédia. Nunca fui em uma peça de comédia, mas decidi ir porque precisava rir. Até que voltei para casa muito bem! Ri tanto, ri o que não ri em um mês depois que eu terminei. E talvez eu tenha ensinado o meu corpo nesse dia que é possível ser feliz nas desgraças. Que eu posso ser feliz mesmo quando nem tudo vai bem. Que sentir felicidade é incrível. Desde que me tornei psicanalista, tenho ficado cada vez mais consciente dos meus hábitos e já faz mais de um mês que não fumo. Até tentei fumar um cigarro nesse tempo, mas o meu corpo rejeitou. Também tenho mexido menos nas minhas redes sociais. Tenho me preocupado mais com a vida que eu quero viver, até porque escuto pessoas falando sobre as suas vidas.
Eu já estou melhor. Não foi um mês fácil, mas eu sobrevivi. Assim como sobrevivi a uma caralhada de coisas.










